Em Foco: A Ética Institucional

Por Eros Salerno

A ética assume um papel de maior importância nas instituições e promete ser a nova “aquisição” das corporações nos próximos tempos.

 Uma das definições mais simples que conheço sobre ética diz: Ética é um conjunto de regras úteis à boa convivência humana, portanto, ética profissional de maneira simplificada seria um conjunto de regras destinado a promover as boas relações profissionais e correlatamente, podemos pensar que a ética corporativa expande este conceito para a esfera das pessoas jurídicas.

 Convivemos com o fator ético desde o nosso nascimento até o último dia de vida, tudo o que fazemos está de alguma forma sob os olhares de algum padrão ético, seja de um grupo social ou instituição, de uma empresa, um grupo religioso, político, ou da própria sociedade como um todo.

 A ética nem sempre é positiva ou construtiva uma vez que é formada sob a percepção de realidade de cada indivíduo, e sendo esta percepção distorcida, sua ética também o será, isto equivale a dizer que a ética é relativa aos valores de cada grupo ou indivíduo; se estes valores são desprovidos de discernimento a ética servirá somente para balizar uma visão limitada da realidade como por exemplo a ética dos mafiosos ou dos grupos criminosos.

No mundo dos negócios a ética tem se tornado um fator de alta relevância; tanto por parte das empresas, que procuram profissionais com valores mais éticos, quanto por parte de uma elite de profissionais que, por perceberem que as ações demandadas por determinadas empresas chocam com seus valores pessoais, passaram a ser mais criteriosos na escolha da empresa ou do setor a que querem se dedicar.

Recentemente tivemos vários episódios de escândalos financeiros envolvendo importantes empresas no cenário norte-americano, alguns deles chegando a abalar a economia americana. O assunto chega a assustar; segundo uma pesquisa divulgada em Julho de 2003 pela Conference Board, uma organização americana que trata de gestão, 41% dos executivos entrevistados esperam para os próximos 12 meses de 6 a 10 grandes escândalos financeiros entre as 500 maiores empresas eleitas pela revista Fortune.

Após estes escândalos a importância dada para a ética nas empresas aumentou consideravelmente, o assunto tem sido mais freqüentemente discutido nos níveis mais altos de gerência das corporações, principalmente pelo fato de começarem a perceber que a ética não se limita simplesmente a uma forma de dirigir os negócios pautada na boa conduta, mas que a falta da mesma, principalmente na área financeira, pode levar uma grande empresa do sucesso à bancarrota.

Na verdade, o que as empresas querem não são executivos que meditem em posição de lotus por 1 hora todo início de expediente ou que recitem mantras nas reuniões, mas sim pessoas que inspirem confiança dentro da organização e para o mercado, e mais do que isto, almejam pessoas que tenham a habilidade de transformar seus valores éticos em resultados usando o bom senso e discernimento pessoais, por exemplo ao sugerir uma modificação em um produto ou serviço para que o mesmo não traga malefícios ao consumidor, poupando a empresa de possíveis batalhas judiciais no futuro.

Já a ética nas finanças corporativas muitas vezes depende de executivos que estejam dispostos a colocar sua carreira em risco para divulgar com transparência o demonstrativo de resultado econômico de sua empresa apresentando uma má performance no período, ou decidir por um recall que pode prejudicar os resultados futuros.

Quando uma empresa resolve adotar princípios éticos mais rígidos é que surgem alguns dilemas, um dos principais é: Como aumentar ou mesmo manter o lucro com a adoção desta nova política ética? Um bom exemplo disto poderia ser uma empresa onde seu grupo de acionistas chega ao consenso de que não fornecerá mais seus produtos para clientes do setor bélico, e isto implicaria em redução de faturamento. Neste momento é decidir pelo lucro ou pela ética, pois nenhuma fórmula conseguiria equalizar positivamente lucro e ética para este caso.

Nem tudo é escândalo; apesar destes recentes episódios tem-se visto muitos avanços, como é o caso dos inúmeros recalls feitos por empresas que chegaram a conclusão de que colocaram no mercado produtos que podem causar danos ao consumidor ou tem má qualidade, programas de recall costumam ter um alto custo envolvido; considerando-se a quantidade de produtos em campo bem como custo do serviço de troca.

Na área de recursos humanos observam-se avanços, há empresas que chegaram a conclusão de que podem aumentar sua eficiência investindo em alguns benefícios que as tornam diferenciadas no mercado, e portanto, almejadas por bons profissionais, além de criar internamente um ambiente motivador, inspirando confiança aos seus funcionários. A relação empresa/empregado está sob transformação no Brasil há algum tempo e ainda passará por mudanças nos próximos anos, neste período de transformação a ética certamente desempenhará um importante papel norteador no reposicionamento das corporações e dos profissionais.

Outras áreas que tem sofrido mudanças significativas estão ligadas a função social e a parte ambiental das empresas: gigantes e pequenas tem cada vez mais se engajado nos projetos sociais e ambientais proporcionando além da ajuda à sociedade, uma associação da sua imagem a uma boa causa, há também uma preocupação maior com os impactos ambientais impulsionada pela necessidade de implantação das normas ISO14000.

A ética realmente parece ser a bola da vez no mundo dos negócios, o que pode provocar uma considerável demanda para o mercado de consultoria de gestão no Brasil. Na Europa e América do Norte isto já é realidade, há uma grande e crescente demanda por projetos de estabelecimento da ética nas empresas e por consultoria em estratégia ética. A mídia internacional e brasileira tem dedicado espaços cada vez mais generosos ao assunto, o portal de internet do jornal Washington Post já tem uma página permanente com conteúdo integralmente voltado à ética corporativa.  Em um futuro próximo poderemos nos pegar extremamente ocupados em implantar nas empresas programas de nivelamento ético, novas diretivas corporativas de conduta, workshops de conscientização ética ou outra filosofia com embasamento ético, assim como aconteceram com as normas ISO9000, com os conceitos japoneses de produção enxuta, Just-In-Time, com a reengenharia e outros, a ética tem grandes chances de ser a próxima “aquisição” das empresas. 

O homem, desde o início de sua existência no planeta sofre influência do ambiente em que vive e também o influencia, convive com seus semelhantes e organiza-se em sociedade, e através de um processo lógico que vai desde a observação de um fato, passando pela conclusão e desencadeando na ação, ele estabelece o seu conjunto de práticas ou regras que o ajudam nesta relação com o meio e com o seu semelhante, ou seja, o ser humano evolui ao longo do tempo e isto o direciona para as corretas relações humanas. Atualmente há uma tendência de se enxergar as organizações como seres com vida própria, suas respostas aos estímulos do mercado são permeadas pela emoção, elas aprendem lições e evoluem, fazendo com que os próximos negócios tenham um grau maior de acerto e os relacionamentos entre as empresas, fornecedores e parceiros, possam ser aperfeiçoados e tendam a alcançar as corretas relações empresariais, para que isto aconteça o capital humano deve ser considerado o maior valor de qualquer empresa já que é a parte inteligente e viva da organização, na verdade é o portador da própria ética.

Nota : Este texto foi originalmente escrito para uma revista especializada em empresas a alguns anos atrás, no entanto é oportuno que seja publicado neste espaço pois reflete uma realidade similar vivenciada pelas instituições do 3º setor que devem preocupar-se com a questão qualitativa de seus recursos tanto ou mais do que a quantitativa.

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